janeiro 30, 2012

Infância

triângulos vermelhos

dentes
vermelhos
sol
carne
cabelo
pequeno
amarelo
mochila
preto
buraco
armário
ovo
bolo de chocolate com cobertura e confetes
cerveja no copo
corredor externo, sons estáticos, eco.
sacada
gêmeas
pufe de bolinhas de isopor
blusa listrada colorida
baton no carpete
tesoura sem ponta
lápis de cor
giz de cera
leite com nescau
mesa redonda
balança de teto
caixa de brinquedos
São Paulo
papel de parede

janeiro 13, 2012

Um relato frustrado

São 2:44 da manhã, é sexta-feira 13. Um momento de frustração. Um dia de muito calor, mas nem assim de céu aberto para quem mora em Curitiba. Além de ter passado um bom tempo no cartório autenticando cópias de documentos, lido sobre a vida de Lisbeth Salander e ter ficado mais de duas horas jogando um joguinho implicante, até descobrir, sumariamente, que sou um erro para essas coisas, decidi fazer um email.
Percebi, que possuo o mesmo endereço no hotmail.com desde 8 anos de idade, e que ele é particularmente extenso, ilegível, "inescrevível" e nada prático, quando, por razões nem de todos conhecidas, preciso passar meu "email" a alguém de meu interesse.
Portanto, depois de muito pesquisar e refletir, percebi que deveria utilizar os serviços do Gmail. Comecei a preencher o questionário inicial, e deparei-me com uma situação inusitada, já que o último email que criei foi aos 8 anos. Não consigo criar meu login. Já tentei de tudo: "I.palhano", "Isapalhano", "isadorapalhano", "isagatinha123", "gatanacamquertc96", e tudo o que o site me recomenda é "palhanoisadora91" ou "querotc33". Essa é uma situação realmente desconcertante. Não consigo imaginar, na minha "inocência de dezessete anos", alguém, além de uma puta, que criasse um email como "gatanacamquertc96", ou seja, há algo de muito errado com esse site. Talvez essa seja uma sucinta prova de que vivemos num mundo de conspirações e ditaduras enrustidas nas quais não se pode querer criar um simples endereço de email para me livrar de um resquício desprazeiroso da minha infância e talvez numa sociedade em que não se pode querer ser puta ou música, que ambas são profissões de desprezo pelas pessoas. Não se pode querer usar tal roupa, tatuar tal coisa no corpo ou pensar e ouvir e comer tal coisa.
Talvez esteja diante de um fato incrível, nunca antes revelado à sociedade da internet: estamos fadados ao fracasso. Nossas vontades não são atendidas, nossos emails não são criados, nossos pensamentos são corrompidos com simples botões de "verificação de disponibilidade" que avançam pelas nossas vidas, levando-nos à uma situação de total dependência e alienação.
Somos submissos a casos como este que acabei de revelar, não podemos ter ideias, assim poderíamos causar qualquer transtorno às autoridades. Aliás, como Lisbeth, não falo com autoridades, é só uma característica nossa.
Por fim, são 3:13 da manhã, continuo na mesma posição em que comecei esse relato, minha bunda já está quadrada por ficar a noite toda aqui, e minhas pernas adormeceram, sem contar com a fome absurda e devastadora que vai me fazer devorar qualquer coisa da geladeira que costumam comer aqui em casa.
Ou eu diria, o que nos mandam comer?
PS: Decidi continuar com o email infantil.