Tinha começado a chover torrencialmente quando subi no ônibus, voltando da faculdade. Fazia mais de uma semana que o tempo de Curitiba estava assim, fechado, frio, chuvoso. Essa cidade está cada vez mais fúnebre, pensei. Fui sentada na janela, no banco não-preferencial, e como sempre, comecei a refletir sobre algum assunto pertinente ou tabu. Dessa vez o assunto das manifestações no Brasil se tornou pauta da minha reflexão de ônibus diária. Com toda a movimentação no país a respeito do valor das passagens (e tantas outras coisas implícitas nisso), pensei comigo, qual é o meu papel nessa história toda? Eu, que sempre fui a favor de manifestar minha indignação e lutar pelo que é direito das pessoas, não conseguia entender o que o movimento todo estava querendo. Até então não havia entendido.
Ao chegar no meu ponto, desci do ônibus. Já passava da 1h da tarde. Coloquei meus fones de ouvido, alguma música brasileira pra tocar e caminhava rapidamente, como costumo andar pela rua. Ainda estava chovendo, porém em uma intensidade menor o suficiente para não precisar abrir o guarda-chuva.
Caminhei três das quatro quadras entre o ponto de ônibus e a minha casa, mudei de música duas vezes.
Até que cheguei na quadra de casa. Avistei um homem a uns dez metros de mim, de boné vermelho, era um catador de rua. Carregava várias sacolas e puxava um daqueles carrinhos de lixo grandões, que estava cheio, e que ao final do dia lhe renderia uns dez reais no máximo.
Eu, como sempre fui "protegida" demais pelos meus pais -lê-se mimada- sempre tive medo da violência urbana. Acho que isso é um reflexo da sociedade atual, vivemos nos fechando cada vez mais, aumentando as grades dos prédios e tentando nos esconder disso que temos tanto medo. Na verdade às vezes penso que temos mais medo da violência do que ela realmente existe. E justamente por ter medo daquele homem que subitamente apareceu na minha rotineira volta pra casa, escondi rapidamente meu celular no bolso do casaco e tirei os fones do ouvido, tentando, num ato de desespero, não ser alvo de um assalto. E comecei a andar mais rápido ainda, deslocando minha trajetória um pouco mais longe da trajetória do homem.
Ao passar pelo catador de boné, vi que ele havia subido na calçada, como se estivesse vindo em minha direção. Gelei. Engoli seco.
Tentei fingir que não o tinha visto, mas foi em vão. Trocamos olhares.
Agora podia ver melhor seu rosto, aparentava ter uns 50 anos, tinha um aspecto cansado e olhos verdes.
Vestia trapos e estava encharcado por causa da chuva.
Fodeu, pensei. Estava apavorada e pronta pra sair correndo, quando...
o homem, então, num gesto calmo e sincero, levantou a mão direita e fez um sinal de "paz" com os dedos.
E foi aí que entendi o motivo da minha reflexão.
-Boa tarde menina, tudo bem com você? Ele disse, sorrindo.
Quando "não" há opção e sentimo-nos sufocados a ponto de vomitar tudo o que temos, fizemos e pensamos desde que nos conhecemos, escrevemos.
junho 26, 2013
junho 22, 2013
Crítica
Fiquei aqui um tempão tentando escrever algo sobre eu estar de saco cheio da pequenez das pessoas, depois de tentar começar várias frases: "estou cansada de tanto assunto babaca...", "não aguento mais as pessoas falando de dinheiro...", "assunto pequeno é pra gente pequena...".
E num ímpeto, me peguei pensando que a pessoa pequena estava sendo eu mesma, tentando dessa forma achar algum motivo pra me sentir um pouco mais humana e menos insensível.
E num ímpeto, me peguei pensando que a pessoa pequena estava sendo eu mesma, tentando dessa forma achar algum motivo pra me sentir um pouco mais humana e menos insensível.
Assinar:
Comentários (Atom)