julho 29, 2012

Viagem

Os olhos se fechavam ao som da música alta, que a conduzia a outro universo. Um lugar paradisíaco em que  não existiam problemas e tudo estava em perfeita sintonia. As batidas daquele som, eletrônico, metalizado, ecoavam em sua cabeça e deixavam-na viciada, querendo mais e mais. Enxergava lasers por toda parte e ela não se preocupava. Tomava um gole d'água. O mundo poderia acabar e ela estava tranquila, dominada pelas batidas da música. De repente alguém lhe entrega um pequeno papel, era metade da dose, e ela o coloca em baixo da língua. A magia começa a acontecer.
  Já não está mais dentro de si, sua mente voa, atravessando todos os corpos e mentes.
  Não há mais noção de tempo e seu corpo flutua.
  Já passa das duas horas da manhã.
  Ela vê os outros, mas não consegue chegar até eles, seu corpo está petrificado pela música. Então ela vê luzes dançando através de seu corpo, até certo ponto engraçadas e ela ri.
 Tocava Daft Punk agora.
A menina que um dia fora triste, agora se encontrava naquela imensidão ritmada e psicodélica.
Não tinha medo, sentia-se confortada e protegida. 
Fechava os olhos e conseguia enxergar.

Sem título

Ela tinha olhos profundos e de ressaca e era dissimulada, uma perfeita Capitu.

Ressaca

         Quero viver as intensidades da vida, quero sonhar e dar risada e chorar. Chorar por amor, de felicidade, de tristeza. Parar de encarar tudo com dificuldade, porque a vida é difícil, sim, mas tudo depende do ponto de vista. Não há amor que não se possa superar, não há tristeza que nunca acabe, nem felicidade tão passageira assim.        A vida é intensidade, paixão.
         Eu sou intensidade.

julho 25, 2012

Nabel

Acorda de manhã -atrasada-, pega um cigarro, lava o rosto. Tinha dormido mal na noite anterior, a farra foi boa, a bera tava gelada e a sua mina ali do lado. Era Nabel, seu nome. Mudou-se de cidade por motivos familiares, saiu de São Paulo para Curitiba. Tinha 19 anos e pouca experiência de vida, mas muita, muita loucura. Seus dias se resumiam a trabalhar num bar Curitibano, estudar de noite e sua vida era regada a drogas e muita cerveja e Tequila e bares com amigos. Era extrovertida, falava alto, gay assumida. Acima de tudo, era linda. Levava a vida com música, dançava forró muito bem e sabia como tratar uma mulher. Nabel não tinha remorso, não se arrependia e era feliz. Loira de olhos claros, conquistava as meninas por onde passava e seu sotaque paulistano era explícito. Dona de um cabelo sensacional, me conquistou certa vez. Mas ela era assim, passageira. Nabel amava a vida, mais do que tudo.

Esquadros

Pela janela do quarto Pela janela do carro Pela tela, Pela janela Quem é ela, quem é ela?

julho 11, 2012

Desculpa se não consegui escrever nada que te confortasse nesse momento.

Minha Fortaleza

Quero um banho de mar, pra me refrescar e tirar o peso de um amor complicado. Quero sol, praia, felicidade. Que a maré leve, leve essa mancha preta que há em meu viver e volte trazendo sua leveza, sua paz. Que a brisa cole em meu rosto, cheiro de mar, de vida, de amor. Não há dor, onda que bate não dói, lava a alma, pensamento gigante, vibrações positivas e dias de cor. Paz, quero paz. Paz de espírito, navegador de maré funda, pescador de almas perdidas. Imensidão de mar azul, horizonte perdido em meio a navios e âncoras furtadas. De bem estar passo a voar, nadando em verde oceânico, algas marinhas fazem cócegas, meu pé se molha. Estrelas no céu, estrelas no chão, pinicam e é tão bom. Sol de verão, inverno caloroso, noite pacífica. Turistas na vila, músicos de passagem, colar de contas e vendedores de artesanato, se misturam em meio ao som da maré, som do amor. Conchas. Lua azul refletida horizontalmente, me leva daqui... Me mostra que há um sol brilhando atrás da montanha, guarda o sol, guarda-sol, leve-o pra mim. Me inspiram as noites calmas, me acalmam e me confortam. Anjos provocam as ondas, levam e trazem e lavam por onde passam, estrelas caem... Chuva de desejos, música e violão. Peixes levam para o fundo, todo o desespero que alguém uma vez teve. Dias maravilhosos, som de mar, de picolé, criança correndo na beira-mar. Sincronismo de sol e sombra e mar e vida e luz e calor e brisa no olhar. Paz.

julho 10, 2012

Gabriella

B E I J E I.

De tarde

Eles se viram uma vez, num bar.
Ela achou incrivelmente ridícula a figura dele, pois portava um boné azul anil e seu cabelo era um pouco armado e comprido, pelo ombro, fazendo com que parecesse um palhaço, ironicamente. Não conversaram pois mal tinham se conhecido, ele era amigo de um amigo de um amigo. Talvez tivessem algo em comum, talvez não. A não ser pelo fato de estarem tomando a mesma cerveja no mesmo bar, e morarem na mesma cidade e também compartilharem esse amigo distante. Não se viram mais e ela até nem se lembrava do rosto e cabelo peculiares do rapaz. Até que um dia, após caminhar um longo percurso no centro da cidade, parou para procurar algo em sua bolsa, sentando-se em um banco numa praça aleatória. Estava um dia frio de inverno, o tempo fechado, ventava. Subitamente, sem encontrar o que procurava, algo fez seus olhos se desviarem do foco da bolsa -que é um saco sem fundo, por sinal- e se levantarem até a altura do rosto e foi então que o viu. Ele não estava mais com o boné azul, seus cabelos armados balançavam livremente com o vento e o efeito do seu caminhar, e então ela reparou que seus olhos eram verdes. Olhou rápido, eles trocaram uma dúvida de onde se conheciam. Ela então se perguntou. Ele passou num segundo por sua frente, cruzou a rua e olhou para trás. Ela então se lembrou do dia no bar. Achado o que procurava, a menina resolveu seguir seu caminho até o ponto de ônibus mais próximo. Ao atravessar uma rua, percebeu que ele estava próximo, pois havia ficado retido por causa do sinal vermelho. Eles então se olharam novamente, ela sabia, mas não tinha certeza se ele sabia. Andaram então, pelo calçadão, um pouco próximos, porém o rapaz apressou o seu caminhar e cruzou a próxima rua, fazendo com que a menina ficasse para trás. Ele chegou em seu ônibus, que estava para sair, e a menina percebeu o porquê da pressa do rapaz. Ela então atravessou a rua, e sentiu o olhar no canto dos olhos que ele estava pagando a passagem ao cobrador. Sentiu também que ele a observava caminhando pela praça lotada de pombas e até certo ponto fedida. Foi então que ela percebeu que ele também sabia.