Eles se viram uma vez, num bar.
Ela achou incrivelmente ridícula a figura dele, pois portava um boné azul anil e seu cabelo era um pouco armado e comprido, pelo ombro, fazendo com que parecesse um palhaço, ironicamente. Não conversaram pois mal tinham se conhecido, ele era amigo de um amigo de um amigo. Talvez tivessem algo em comum, talvez não. A não ser pelo fato de estarem tomando a mesma cerveja no mesmo bar, e morarem na mesma cidade e também compartilharem esse amigo distante.
Não se viram mais e ela até nem se lembrava do rosto e cabelo peculiares do rapaz.
Até que um dia, após caminhar um longo percurso no centro da cidade, parou para procurar algo em sua bolsa, sentando-se em um banco numa praça aleatória.
Estava um dia frio de inverno, o tempo fechado, ventava.
Subitamente, sem encontrar o que procurava, algo fez seus olhos se desviarem do foco da bolsa -que é um saco sem fundo, por sinal- e se levantarem até a altura do rosto e foi então que o viu.
Ele não estava mais com o boné azul, seus cabelos armados balançavam livremente com o vento e o efeito do seu caminhar, e então ela reparou que seus olhos eram verdes.
Olhou rápido, eles trocaram uma dúvida de onde se conheciam. Ela então se perguntou.
Ele passou num segundo por sua frente, cruzou a rua e olhou para trás. Ela então se lembrou do dia no bar.
Achado o que procurava, a menina resolveu seguir seu caminho até o ponto de ônibus mais próximo.
Ao atravessar uma rua, percebeu que ele estava próximo, pois havia ficado retido por causa do sinal vermelho. Eles então se olharam novamente, ela sabia, mas não tinha certeza se ele sabia.
Andaram então, pelo calçadão, um pouco próximos, porém o rapaz apressou o seu caminhar e cruzou a próxima rua, fazendo com que a menina ficasse para trás.
Ele chegou em seu ônibus, que estava para sair, e a menina percebeu o porquê da pressa do rapaz. Ela então atravessou a rua, e sentiu o olhar no canto dos olhos que ele estava pagando a passagem ao cobrador.
Sentiu também que ele a observava caminhando pela praça lotada de pombas e até certo ponto fedida.
Foi então que ela percebeu que ele também sabia.
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