janeiro 21, 2013

sá-Bonete

A receita é: Pega-se uma estrada feita de curvas que não acabam mais, deixa-se o carro na areia. O barco chega, você entra. Demora um tempo até se acostumar com o vento que faz à medida que a velocidade aumenta. Você olha pra trás, e num gesto ainda exitante, coloca o colete salva-vidas, "vai que o barco afunda né". Passados os momentos iniciais, você começa a se conformar de que está no meio do mar e não tem mais volta, então começa a apreciar a paisagem que aos poucos lhe vem aos olhos: alguns pedaços de Terra à vista, e pequenos locais em que se é possível enxergar pessoas caminhando ao pôr-do-sol. Aquilo tudo é simplesmente lindo. E você realmente acha isso, não é porque outras pessoas fizeram comentários ou a sua mãe fala pra você "apreciar a paisagem". Você se dá conta de que achou aquilo um paraíso e essa sensação é genial, cara. Libertadora. Aí o barco encosta na areia, você desce. Está sem os chinelos e também com muita preguiça de abrir a bolsa para pegá-los. Então você, ainda com a imagem do que viu anteriormente, vai se acostumando com a cara do lugar. Como quando passa-se muito tempo ao sol e depois muda-se para um local de sombra, leva-se um tempo até enxergar o que tem pela frente. Quando é possível enxergar com clareza, você se depara com três barracas feitas de madeira: um pequeno quiosque que vende 5 tipos de porções de comida, coco gelado, água e cerveja. E outros dois em que se guardam os barcos que com muito custo atravessam aquele mar todos os dias. Você carrega duas malas, e um menininho pálido e de olhos absurdamente grandes (ah, eles incrivelmente tinham cor azul-piscina) te arrasta pra dentro da mata, indicando o caminho até a casa em que você ficará. Durante a trilha é possível enxergar alguns buracos de algum tipo de caranguejo ou siri, seilá. Deve ter uma cidade desses bichos em baixo da terra. Chegando na casa, você deixa as mochilas jogadas na sala e pensa: "vô dar um mergulho no mar". A água era incrivelmente salgada, e falando em primeira pessoa, foi o melhor banho de mar da minha vida.
Conheci um muleque que parecia o Cazuza e ele tocou Pink Floyd ininterruptamente às 2 da manhã na sacada.
Velho, poderia passar a minha vida toda naquela sacada. O que era aquela flauta? Posso sentir até agora aquela brisa suave que vinha do sul. O sol sorria com um humor inigualável através dos buracos entre as folhas das árvores, e iluminava pouco a pouco as roupas encharcadas no varal. Era tudo muito úmido. O corrimão era feito de improviso, pedaço de madeira que sobrou da construção. "Coloca aí pra nóis num caí", disse Dito, o homem mais respeitado daquela ilha. Não era preciso muito tempo para que se pudesse ver a manada de galinhas (e muitos pintinhos!) que, diariamente, faziam a alegria daquele lugar, juntamente com os patos, cachorros, e é claro, as pessoas incríveis e cheias de história, que nunca na história dos meus "velhos" 18 anos, havia visto. Era primo que casava com primo, professor de biologia aposentado (e um bebum de carteirinha), caiçara que não se dava com alguns exóticos, música de interiô, que na voz do Dito e devidamente acompanhada por violão e viola e alguns outros caiçaras, conseguiram colocar em mim um sorriso que só aparece naquele lugar. Um sorriso de serenidade, de paz.
O chuveiro era frio, o lugar era rústico...

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