março 31, 2016

memórias de 2013

Ela lembrava exatamente a primeira vez que o viu.
Era uma quarta-feira pela manhã, e entrou atrasada numa aula de Cálculo III. O professor, que falava um português com sotaque espanhol já tinha preenchido metade do quadro negro. A sala de aula estava lotada.
Saíra apressada da outra aula, temendo chegar atrasada para esta. Comprou um café no caminho, que veio sendo derrubado aos poucos, chegando quase frio ao destino.
Ao entrar na sala, o avistou de longe.
   Ele era muito bonito, moreno e usava óculos. Seu cabelo liso e comprido estava preso a um coque semi preso e baixo.
Esboçava um ar muito compenetrado em entender o assunto da matéria. Via-se que era muito seguro de quem era e o que queria.
Usava um moletom cinza com a sigla da universidade, "UFPR", em verde.
Sentava em uma mesa na quarta fileira e o lugar a sua frente estava vazio.
Sem pensar duas vezes a menina sentou-se naquele lugar vazio.
Sentiu-se parte daquele lugar vazio.

março 21, 2016

Exercício mental de hoje.

   O amor é livre. Seria muito egoísmo das pessoas privar os outros de sentir amor incondicional quando tem que ser sentido. É muita hipocrisia dizer que o amor entre duas pessoas se resume a acordar de manhã cedo, tomar café da manhã e no final do dia dizer boa noite. É idiotice querer amar somente uma pessoa, porque o amor, em todas as suas formas, deve ser compartilhado.
  Amor não é algo que se quantifica, nem que se sente a vida toda por alguém. O amor é mutante, está sempre se transferindo a outras pessoas e é isso o que faz desse amor tão essencial de ser sentido. Pode durar um dia, um mês ou apenas alguns segundos. é inevitável sentir amor por alguém.
  Dá pra sentir amor por duas pessoas ao mesmo tempo. Ou três.
  o amor pode ser diferente pra duas pessoas, algumas amam mais.
O amor não deveria ter posse, não deveria ser egoísta e privar as outras pessoas de experimentarem o amor que os outros têm pra oferecer.
O amor é conhecer o outro, é um sentimento que não precisa ser mútuo.
   O simples fato de amar já torna amor. o amor está em todas as coisas, em todos os lugares e deve ser sentido em todas as suas formas.
Pra quê passar a vida toda sem amar, mal amar e desamar?
 Como passar a vida toda sem experimentar o amor?   O amor é livre!

março 11, 2016

Outro relato


  Já era em tempo, o cigarro ainda estava aceso na janela, queimando lentamente ao passo que balançava gentilmente segundo a direção do vento. A fumaça branca e turbulenta adentrava a janela do quarto e tomava o ambiente como um visitante que chega sem avisar e sem tocar a campainha.
A noite, cálida e fria era interrompida por um único farol aceso de um carro, bem em frente a janela que sustentava o cigarro, agora quase apagado.
   Tinha chovido naquele dia e o cheiro de asfalto quente e molhado brigava quase que numa guerra de trincheiras contra o cheiro imponente do cigarro -Carlton- que insistia em continuar aceso.
Era possível ouvir barulhos de carros passando quase na velocidade da luz a fim de terminarem seu trajeto de um dia longo. Ao passar, ativavam a luz de segurança do prédio da frente, iluminando todo o ambiente em volta.
O caminhão de lixo alarmava que o dia estava terminando para alguns e só começando para outros, desafortunados. Outro cheiro agora contrastava com os anteriores, o lixo fétido não perdoava nem os próprios lixeiros.
  Da janela do quarto via-se pessoas em suas sacadas, algumas aproveitando a quinta-feira à noite pra finalizar com uma cervejinha gelada, outras tentando fazer bebês dormirem e outras, assim como eu, fumando um cigarro providencial antes de cair na cama e tentar dormir até amanhã.

Boa noite.  

março 07, 2016

então tudo muda e

Voltou a temporada de escrever, de ir ao cinema sozinha e comer toda a pipoca.
Voltou a temporada de andar de bike por aí, sentar na praça e ouvir Great Gig in the Sky.
De saber me divertir sozinha, falar por aí e ser um pouco estranha às vezes.
De sair com algumas pessoas e não gostar de nenhuma e rir dessa situação patética e fazer piada da minha solidão. De ter altos papos na internet e no domingo sair pra comer sem hora pra voltar.
De ir no James e tomar todas e voltar cambaleando pra casa. De nem lembrar como cheguei nos lugares. De conhecer, desconhecer, viajar, ler, aprender.
De ter umas transas atípicas, conhecer o café de cada lugar diferente. Uns fracos, outros amargos, outros que vêm com uma torrada.
De ter momentos "Lispectorianos" de crescimento. Se você não sabe o que é isso, procure saber.
Até que não pode ser tão ruim assim, né.

Bom voltar por aqui.

  Visto uma camisa um pouco maior do que meu tamanho e sento na beirada da cama, agora mais vazia do que nunca. É fim de tarde, o dia quente e cheio de sol vai dando lugar à noite, que chega sussurrando, gélida e sem pudor. A casa tá vazia.
 Decido que vou tomar banho.
No espelho vejo a marca no meu rosto, que já não está mais tão saliente, de uma queda por aí. Queda de amor, de desespero, de fuga. Meu joelho também incomoda um pouco.
Ligo a água, demora a esquentar. Primeiro coloco meus pés, que são aquecidos subitamente pela água agora já quase pelando. Não gostei disso, penso.
Depois molho minhas coxas, vejo a marca de um cigarro que caiu por ali, acidentalmente. Doeu pra caralho, mas eu nem lembro muito bem. Até formou uma pinta.
  O banheiro já está tomado de vapor e molho minha cabeça, que agradece, me deixando mais relaxada e serena. Minutos depois minhas mãos encontram a toalha e meus pés encostam no tapete escuro do meu quarto.
  Já se completaram 10 horas desde que comi pela última vez e nem pretendo comer, meu estômago nem me pede mais alimento, pra quê, né. Se alma se alimenta é de amor.