abril 30, 2011

merles bleus

tão previsível, tão verossímil, até parece oriunda de outra dimensão. É tamanha a indiferença, tamanha a passividade e facilidade de se antever seus sentimentos, que às vezes até me surpreendo. Vai ver, dessa maneira inconstante, você viva constantemente. A rotina -pincelada com traços aventureiros passados- te pega, te prende, te consome. É como se a sua pontualidade de presença fizesse de você um certo tipo de platonismo, um ser inalcançável. Em doses homeopáticas, você se mostra, e se revela frustrada e decidida [ou não] a atingir seu ápice, sua freedom.
e o menino (pequeno, 7 anos e alguns meses) aguardava pacientemente do lado de fora da porta do quarto dos pais. Esperava ouvir algum sussurro, grito ou qualquer sinal de que estava tudo bem. O pequenino, loiro e de olhos castanhos, tapava os ouvidos com suas mãozinhas, torcendo para que aquilo parasse. Cerrava os olhos tão profundamente, que às vezes parecia estar tudo bem, não havia grito algum. Na sua breve inocência, não entendia muito bem o que se passava em sua cabeça, na verdade, não sabia o que era, só sabia o que vinha depois.

abril 29, 2011

sa mort

foi naquele ano, em que ele saiu em busca dos sonhos perdidos ao longo de toda sua vida. Tentava se lembrar de quando foi que tudo começou, mas a única lembrança que vinha em sua mente, era a de estar em um bar, bebendo cachaça barata e lamentando a morte da única mulher de sua vida. Não era, necessariamente, o fim da linha, mas ele sentia que o pesadelo havia começado e tão rapidamente que perdeu as contas de todas as noites em que passou secando garrafas para tentar -uma única vez- esquecer seu grande amor, ou pelo menos, superar a morte dele. Aos poucos foi se afastando dos amigos, faltava no trabalho e não atendia ao telefone. Recebia diariamente avisos de despejo do seu apartamento alugado pois não pagava as contas, que ele olhava, lia e despejava junto ao monte empilhado de papéis. Não tomava banho, não comia direito, não falava, não sentia, não piscava. Estava apático. Anestesiado. Talvez por causa do álcool em excesso, mas sua consciência não o deixava continuar a viver, precisava dar um fim nisso. Mas nem dar um fim ele conseguia.
Seu quarto escuro, sua cama de molas já tocando o chão, garrafas e mais garrafas distribuídas ao longo do apartamento. Ele andava sempre de jaqueta preta, com os olhos cabisbaixos e vermelhos e profundos, como se procurasse alguma coisa pelo caminho, não sei, uma saída, um buraco negro pra sumir. Entre os pensamentos entorpecidos e indiferentes e a claridão amarela e puntual dos postes da rua, ele pensava, ou melhor não pensava, deixava chegar seu fim incerto, dormente. Até que tudo ficou ainda mais escuro e avassalador e em estado de letargia mórbida, e sua vida passou num segundo diante de seus olhos, consumindo-o de um sentimento de aceitação. E ele aceitou aquela visão amarga da vida, obscura, indolente, inerente à sua existência. Assemelhou cada passagem de sua infância descuidada, sua adolescência introspectiva e relacionou tudo a tudo, compaginou seus sonhos aos pesadelos, suas vitórias -nem tão vitoriosas- aos fracassos, e sem pensar duas vezes, olhou para tudo aquilo com conformidade, em negrito e berrando dentro de si junto a seu corpo retalhado e inconsequente, lívido. Ele estava independente.

abril 26, 2011

apaga

escurece, parasita, queima, perde, liga, some, soma, vidra, ama, olha, torna, desliga, vira, reduz, seduz, exala, anda, aparece, desaparece, aliena, super estima, atrapalha, desorienta, hostiliza, incomoda, engana, negligencia, despe, sufoca, desaponta.
e outros tantos.

abril 22, 2011

eba, mais uma anedota.

cabElos olhos pés mãos dedos Unhas cílios pupilAs lábios dentes língua topete sabão braços tatuagens cheiros seios cores uMbigo furOs piercings jeans liVros sorrisO estática lágrima filme física frio altura normal história loja cheiro sensação abraço macarrão dinossauro 'carinha' óCulos barriga coração cheiro caixinha física cheiro tÊnis blusa roxa rosa preta letra branca cheiro felicidade feliz? flor piada 20 mínimo máximo vida cidade perfume mulher fe... f, f, f, f, f, fodeu.

abril 18, 2011

aquele que Reluz

O amor é vontade física, é admiração. O amor é paixão, é convivência, aceitação. O amor é nada. A vida é amor, a vida é tudo. A vida é feita de amor, de apego à primeira vista. O amor é platônico. O amor é plutônico. O amor está longe e é tão grande que cabe na palma da mão. É outra dimensão. Nega, retrai, assusta, deslumbra. Reluz. O amor é luz, é fogo que não arde, queima. É idealizado, é inventado, é desamado. É desumano não ser correspondido. É menos humano ainda, corresponder. O amor é bebida, dinheiro, música. O amor reluz. É falsa verdade. O amor usa o cabelo curto. O amor tem cicatrizes. É uma cicatriz. O amor tem tatuagem preto e pele. Tem sono, mastiga, engole e cospe as mais bonitas frases, encapuzadas e mentirosas. Ele mente, e como. Ele tem uma carinha nas costas e uma história bonita na frente. Ele se veste de calça jeans e tem uma namorada que pega no pé. O amor não existe, é parte do cérebro que foi danificada. O amor existe no mundo dos homens, dos homens, das mulheres com mulheres. O amor não sobrevive por si só. Se alimenta de gente como eu. O amor, assim, em você personificado, encarnado. Digno de exorcismo.

Obs: o amor me liga às vezes.

abril 07, 2011