foi naquele ano, em que ele saiu em busca dos sonhos perdidos ao longo de toda sua vida. Tentava se lembrar de quando foi que tudo começou, mas a única lembrança que vinha em sua mente, era a de estar em um bar, bebendo cachaça barata e lamentando a morte da única mulher de sua vida. Não era, necessariamente, o fim da linha, mas ele sentia que o pesadelo havia começado e tão rapidamente que perdeu as contas de todas as noites em que passou secando garrafas para tentar -uma única vez- esquecer seu grande amor, ou pelo menos, superar a morte dele. Aos poucos foi se afastando dos amigos, faltava no trabalho e não atendia ao telefone. Recebia diariamente avisos de despejo do seu apartamento alugado pois não pagava as contas, que ele olhava, lia e despejava junto ao monte empilhado de papéis. Não tomava banho, não comia direito, não falava, não sentia, não piscava. Estava apático. Anestesiado. Talvez por causa do álcool em excesso, mas sua consciência não o deixava continuar a viver, precisava dar um fim nisso. Mas nem dar um fim ele conseguia.
Seu quarto escuro, sua cama de molas já tocando o chão, garrafas e mais garrafas distribuídas ao longo do apartamento. Ele andava sempre de jaqueta preta, com os olhos cabisbaixos e vermelhos e profundos, como se procurasse alguma coisa pelo caminho, não sei, uma saída, um buraco negro pra sumir. Entre os pensamentos entorpecidos e indiferentes e a claridão amarela e puntual dos postes da rua, ele pensava, ou melhor não pensava, deixava chegar seu fim incerto, dormente. Até que tudo ficou ainda mais escuro e avassalador e em estado de letargia mórbida, e sua vida passou num segundo diante de seus olhos, consumindo-o de um sentimento de aceitação. E ele aceitou aquela visão amarga da vida, obscura, indolente, inerente à sua existência. Assemelhou cada passagem de sua infância descuidada, sua adolescência introspectiva e relacionou tudo a tudo, compaginou seus sonhos aos pesadelos, suas vitórias -nem tão vitoriosas- aos fracassos, e sem pensar duas vezes, olhou para tudo aquilo com conformidade, em negrito e berrando dentro de si junto a seu corpo retalhado e inconsequente, lívido. Ele estava independente.
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